aprendemos a navegar o mundo a partir do eu. o nosso eu que se defende, recalca, cria mecanismos para se proteger.
o eu que já pensou na resposta antes da pergunta terminar, o eu que não consegue responder porque pensou em outra coisa enquanto falavam, o eu que a cultura cobra que seja “autossuficiente”
que se cobra

a escuta na psicanálise exige uma renúncia
à primazia do eu
e um deslocamento da nossa usual posição na vida
requer abrir mão de padrões, lugares, lógicas e saberes
essa mudança de posição não é natural, tampouco simples
essa escuta depende de estudo, técnica, prática, experiência, análise
e de transferência
é também trabalho
é renunciar ao próprio eu como medida do outro
é interrogar a lógica comum que dita a normalidade
é olhar as diferentes formas de existência, interrogar quantas foram ouvidas
é interrogar a nossa participação no mundo
é se confrontar com aquilo que, no outro,
nos escapa
e se essa escuta nos faz
traçar percursos que interrogam a lógica do estado das coisas
ela também é ato político

se você, profissional da escuta
escuta acreditando em um modelo de sujeito ideal
escuta sem considerar que território, raça,
classe, gênero, sexo, sexualidade e corpo
são marcas que também posicionam sujeitos
a favor de quem a sua escuta opera?
quem são as pessoas que sua escuta alcança?

quando uma escuta acontece, quando uma análise acontece
abre-se espaço para a existência
para a palavra livre
para que os ditos e não ditos encontrem lugar
mas se a sua escuta compactua com o silenciamento
de quem sempre viveu à margem
não é escuta, é manutenção
se você acredita que a escuta não é política
que é total neutralidade
te digo
nem o inconsciente é neutro
e sua escuta também não
por uma psicanálise subversiva, política e social